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Grupo da UFMG desenvolve tratamento promissor contra câncer de intestino
Grupo da UFMG desenvolve tratamento promissor contra câncer de intestino
O câncer colorretal é hoje o terceiro tipo mais frequente no país. O governo federal estima que mais de 45 mil brasileiros serão acometidos pela doença até 2025, o que corresponde a um risco estimado de 21,10 casos por 100 mil habitantes. No artigo Ionizable Lipid Nanoparticle-Mediated TRAIL mRNA Delivery in the Tumor Microenvironment to Inhibit Colon Cancer Progression, equipe do Departamento de Fisiologia e Farmacologia do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFMG apresenta uma terapia promissora para tratar esse tipo de câncer.
O grupo desenvolveu uma plataforma nanotecnológica para tratar a doença, baseada em uma nanopartícula que carrega uma espécie de “receita” para as células do corpo humano atacarem as células tumorais. “Colocamos, dentro da nanopartícula, um RNA mensageiro que funciona como script com todas as informações que a célula do corpo necessita para produzir uma proteína. No caso do nosso trabalho, essa proteína é do sistema imunológico e tem capacidade de induzir a morte programada das células tumorais. Ou seja, induzimos o organismo a produzir uma proteína que mata as células cancerígenas"", detalha o doutorando Walison Nunes, um dos autores do estudo.
A nanopartícula desenvolvida no laboratório da UFMG é baseada na mesma tecnologia utilizada pela Pfizer e pela Moderna para a produção das vacinas contra a covid-19. Segundo Walison, a tecnologia pode ser considerada promissora porque, no caso dos tratamentos tradicionais contra o câncer, a maior dificuldade é fazer o medicamento entrar no tumor. “As células cancerígenas formam uma espécie de ‘microambiente tumoral hostil’, que impede que as terapias e as células imunológicas do organismo consigam combater o tumor de forma efetiva”, diz.
“Em razão disso, também desenvolvemos uma estratégia de normalização do microambiente tumoral, ou seja, fizemos a reengenharia do microambiente, tornando-o mais acessível para que a nossa nanopartícula entre no seu interior e para que os linfócitos do sistema imunológico alcancem o tumor. Quando o tumor se desenvolve, ele cria vasos sanguíneos anormais, e nossa terapia descomprime esses vasos sanguíneos e reduz o depósito de colágeno, possibilitando que os medicamentos entrem mais facilmente nas células.”
Testes
No momento, a equipe responsável pela terapia realiza os testes em pequenos animais por meio de modelo humanizado, ou seja, transplantando as células cancerosas e as células saudáveis de humanos para camundongos. “Também estamos testando o tratamento em metástase e aprimorando o direcionamento da nanopartícula para células metastáticas, ou seja, para aquelas que saíram do tumor primário e se espalharam para outros órgãos.""
Após os testes com o modelo humanizado, o grupo pretende obter financiamento para realizar testes em animais de grande porte e, posteriormente, em pacientes com câncer de intestino.
Adesão ao tratamento
A maior parte dos tumores de intestino são tratados com quimioterapia e ressecção cirúrgica. No último caso, o tratamento é considerado de difícil adesão porque, após a ressecção, o paciente precisa usar uma bolsa para coletar as fezes (bolsa de colostomia), o que gera impacto em sua qualidade de vida. “O uso da bolsa é muito ruim, por isso é necessário o desenvolvimento de novos tratamentos que não afetem tanto o dia a dia e a qualidade de vida do paciente”, defende Walison Nunes.
Os principais fatores de risco para o câncer de intestino estão associados ao comportamento, como sedentarismo, obesidade, consumo regular de álcool e tabaco e baixo consumo de fibras, frutas, vegetais e carnes magras. Outros desses fatores estão associados a condições genéticas ou hereditárias, como doença inflamatória intestinal crônica e histórico pessoal ou familiar de adenoma ou câncer colorretal, e ocupacionais, como exposição a radiações.
Os cânceres de cólon e reto apresentam alto potencial para prevenção primária, por meio do estímulo a hábitos de vida e dietéticos saudáveis, e secundária, baseada na realização de exames para a detecção precoce.
Artigo: Ionizable Lipid Nanoparticle-Mediated TRAIL mRNA Delivery in the Tumor Microenvironment to Inhibit Colon Cancer Progression
Autores: Walison Nunes da Silva, Pedro Augusto Carvalho Costa, Sérgio Ricardo Aluotto Scalzo Júnior, Heloísa Ferreira, Pedro Henrique Dias Moura Prazeres, Caroline Leonel Vasconcelos Campos, Marco Túllio Rodrigues Alves, Natália Jordana Alves da Silva, Ana Luiza de Castro Santos, Lays Cordeiro Guimarães, Maria Eduarda Chen Ferris, Ajay Thatte, Alex Hamilton, Kelly Alves Bicalho, Anderson Oliveira Lobo, Helton da Costa Santiago, Lucíola da Silva Barcelos, Maria Marta Figueiredo, Mauro Martins Teixeira, Vivian Vasconcelos Costa, Michael Mitchell, Frédéric Frézard e Pedro Pires Goulart Guimaraes.
Publicação: International Journal of Nanomedicine (disponível on-line)
Luana MacieiraNanotecnologiaCâncer
Tecnologia inédita de combate à acne desenvolvida pela UFMG chega ao mercado
Tecnologia inédita de combate à acne desenvolvida pela UFMG chega ao mercado
Linha de cosméticos à base de nióbio é fruto de parceria com startup nascida na Universidade e laboratório sediado em Minas
Esforço iniciado há 18 anos nos laboratórios do Departamento de Química do ICEx/UFMG gerou resultados que se traduzem em benefícios diretos para a sociedade. Um grupo de pesquisadores descobriu novas propriedades do nióbio, metal abundante em Minas Gerais, e desenvolveu um ingrediente ativo que é eficaz no cuidado da pele por meio do combate à acne.
Uma vez patenteada a nanotecnologia, a empresa Nanonib, gerada como spinoff na UFMG, criou uma plataforma molecular de síntese de química fina para produção do ingrediente ativo, nomeado BlueActive. Esse produto é utilizado pela Yeva Laboratoires na composição de cinco itens da linha Acnano BlueActive – gel-creme de uso diário, creme de uso intensivo, gel de limpeza, espuma de limpeza e tônico para controle da oleosidade. Eles estão sendo comercializados desde o mês passado no site da Yeva e em farmácias e drogarias.
A nanopartícula de nióbio foi aprovada pela Anvisa para utilização em cosméticos. Os estudos apresentados à agência incluíram testes com 30 pessoas durante 30 dias, sob supervisão de dermatologista: os efeitos foram nítidos na redução do quadro de acne (83% de resultado positivo), com melhora da textura da pele, diminuição dos poros e sem qualquer toxicidade. Além disso, ficou comprovado que ele não penetra na pele, o que afasta a hipótese de acúmulo de nióbio no organismo. Nenhum participante relatou sensação de desconforto.
O BlueActive tem ação eficaz no controle da microbiota da pele, inibindo a proliferação da Cutibacterium acnes e outros microrganismos associados à inflamação da acne – doença que ocorre quando as glândulas sebáceas, secretoras de óleo, inflamam-se ou são infectadas, o que provoca cravos, espinhas e cistos, entre outras manifestações.
Ação microbiológica
O nióbio é usado há décadas na produção de aço, que se torna mais resistente e leve na presença do metal, e mais recentemente passou a ser usado também em baterias para automóveis. Em 2006, o professor Luiz Carlos Oliveira visitou a Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM) e foi apresentado ao óxido de nióbio. “Partimos então, eu e um grupo de pesquisadores, para estudar os fundamentos da molécula: estrutura, propriedades, afinidades, entre outros”, relata Oliveira.
“Nosso primeiro objetivo foi degradar moléculas poluentes em água. Nesse processo, constatamos que o óxido de nióbio funcionava contra a bactéria causadora da cárie e, também, que não cresciam fungos nas placas de Petri [recipientes usados em laboratório para fazer crescer microrganismos] que continham o material. “Essas descobertas revelaram ação microbiológica do nióbio, inclusive contra o vírus da covid-19”, explica o professor. Os estudos geraram grande número de artigos, dissertações e teses.
Quando a pesquisa chegou ao grau adequado de robustez, os resultados foram encaminhados à CTIT, a Coordenadoria de Transferência e Inovação Tecnológica da UFMG, que solicitou registro da patente ao INPI, órgão do governo federal responsável pelos assuntos relativos à propriedade industrial. Luiz Oliveira afirma que as nanopartículas são formadas de modo controlado – aí está o segredo do processo – e se aglomeram para formar uma classe de compostos reativos (polioxometalatos), as moléculas com ação microbiológica. “As moléculas são versáteis, podem ligar-se a outras e absorvem luz solar, o que dá a elas a capacidade de eliminar microrganismos”, explica o professor. Cínthia de Castro e Jadson Belchior, também docentes do Departamento de Química do Instituto de Ciências Exatas da UFMG, lideraram, junto com Oliveira, toda a pesquisa relacionada ao nióbio.
Projetos bem-sucedidos
A reitora Sandra Regina Goulart Almeida comemora a chegada ao mercado de mais um produto derivado de pesquisa realizada na Universidade. “O novo cosmético é a realização de um dos objetivos centrais da instituição, que é gerar benefícios para as pessoas. E sabemos que o ingrediente ativo pode compor ainda outros produtos. O Acnano se junta a outros projetos bem-sucedidos de transferência de tecnologia, em áreas como a própria química, as ciências biológicas e as exatas”, diz. Sandra Goulart exalta o papel fundamental da alocação de recursos por parte de agências de apoio à pesquisa – no caso desse produto, notadamente a Fapemig, vinculada ao governo de Minas Gerais, e a Finep, agência do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.
Criada em 2019 por professores e pesquisadores formados na UFMG, a Nanonib realiza a síntese de compostos de nióbio, que podem ter aplicações variadas. O sócio e diretor executivo da empresa, Joel Passos, ressalta que se trata de produto cosmético de alta tecnologia. “É uma molécula inédita, o primeiro ingrediente ativo à base de nióbio na área da saúde”, salienta Passos, que teve formação acadêmica na UFMG, do mestrado ao pós-doutoramento.
O diretor da Nanonib lembra também que o aprimoramento do tratamento da acne deve ter papel relevante no cuidado com a saúde mental de adolescentes. Segundo dados do Ministério da Saúde, a acne afeta 80% dos brasileiros de 15 a 25 anos de idade. “Há estudos científicos que mostram que a acne é responsável por incidência significativa de problemas de autoestima dos jovens – sobretudo em tempos de superexposição da imagem nas redes sociais –, que podem levar, no limite, ao suicídio”, ele diz.
Segundo o IQVIA, líder global em informações e análises na área da saúde, o mercado do combate à acne no Brasil apresenta evolução constante – em 2002, teve valor estimado de R$ 3,1 bilhões, e a previsão é que chegue a R$ 4,5 bilhões em 2028.
CEO da Yeva Laboratoires, Alessandro Carvalho Tamietti comemora o lançamento da linha de cosméticos, reforçando que “o grande diferencial do ativo nanotecnológico é o alto índice de sua eficácia no controle da acne com excelente tolerância e segurança plena para o uso tópico”.
Outras linhas de aplicação cosmética das descobertas dos pesquisadores da UFMG estão sendo desenvolvidas pela Yeva, empresa sediada em Itaúna, no Centro-Oeste de Minas Gerais.
Itamar Rigueira Jr. | Com assessoria da Yeva e Nanonib
Programa potencializa capacidade empreendedora e de gestão de laboratórios
Programa potencializa capacidade empreendedora e de gestão de laboratórios
Edição 2024 do Outlab, que oferece mentoria para infraestruturas de pesquisa da UFMG, recebe inscrições até 5 de agosto
Até segunda-feira, 5 de agosto, o Outlab UFMG recebe inscrições para sua edição 2024. Destinado às infraestruturas de pesquisa da Universidade, o programa desenvolve habilidades empreendedoras e gerenciais e promove a interação dos laboratórios com o mercado, ampliando o impacto das pesquisas desenvolvidas na instituição. Laboratórios de todas as unidades acadêmicas podem se inscrever.
O Outlab UFMG é um programa de extensão coordenado pela Pró-reitoria de Pesquisa (PRPq), apoiado pela Fundep, a Fundação de Apoio da UFMG, com gestão da inovação do Parque Tecnológico de Belo Horizonte (BH-TEC). Neste ano, conta com outras duas parcerias: a Coordenadoria de Transferência e Inovação Tecnológica da UFMG (CTIT) e a Diretoria de Educação a Distância e Educação Digital (DEDD).
O programa se apoia no tripé metodológico que une teoria, conexão com o mercado e acompanhamento individualizado. Na frente pedagógica está a capacitação em empreendedorismo e gestão de infraestruturas de pesquisa, que conta com apoio de professores da UFMG. São oito módulos de conteúdos nas áreas de legislação, modelagem de negócios, precificação e comunicação, entre outros. Nesta edição, as aulas terão formato síncrono e conteúdo disponibilizado de maneira assíncrona como forma de complementar o conhecimento.
Roadmap
Na frente conexão com o mercado, as equipes participam de momentos presenciais de encontro com empresas e exploram diversos ecossistemas de inovação. No acompanhamento individualizado, as infraestruturas serão orientadas no desenvolvimento de um roadmap, ferramenta que permite abordagem estruturada e customizada para estratégias de gestão de inovação.
A novidade da edição 2024 reside no fato de que os laboratórios participantes terão um bolsista de extensão exclusivo para auxiliar no processo de amadurecimento em gestão de negócios inovadores. Todas as três etapas – teoria, conexão com o mercado e acompanhamento individualizado – são complementares e pretendem abarcar ferramentas, metodologias e conceitos que possibilitem capacitar as infraestruturas para atuação em um contexto ampliado de gestão.
Podem participar as equipes técnico-científicas dos laboratórios institucionais e os grupos listados na Plataforma Nacional de Infraestrutura de Pesquisa MCTI. As inscrições devem ser feitas pelo coordenador da infraestrutura. As propostas inscritas serão avaliadas, e o resultado será divulgado no dia 9 de agosto. O programa será realizado de 28 de agosto a 30 de outubro.
Iniciativa pioneira
O Outlab UFMG está em sua terceira edição e é uma iniciativa pioneira no país. A primeira edição, criada pela Fundep, foi realizada em 2019. Após a pandemia, o programa voltou no ano passado com nova configuração institucional, sob a coordenação da PRPq, e nova metodologia. A edição 2023 envolveu 14 laboratórios participantes e 58 participantes da comunidade acadêmica.
As dúvidas sobre o processo de inscrição podem ser sanadas pelo e-mail infrapq@prpq.ufmg.br.
Jornada Empreendedora em Nanotecnologia UFMG Merck S.A
Jornada Empreendedora em Nanotecnologia UFMG Merck S.A
A UFMG e a empresa Merck Life Science realizam entre os dias 24 e 26 de junho no CAD 3 da UFMG a Jornada Empreendedora em Nanotecnologia.
O evento que é aberto ao publico, reunirá durante tres dias especialistas da Universidade, do mercado e agências financiadoras com oportunidades na área de nanotecnologia. Haverá certificado para os participantes.
Confira a programação e inscrições no link: https://www.sympla.com.br/jornada-empreendedora-nanotech-hub-connect-ufmg-merck-sa__2509468
Spin-off da UFMG é adquirida pelo Grupo Bradesco
Spin-off da UFMG é adquirida pelo Grupo Bradesco
A spin-off Kunumi, nascida em 2016 no Departamento de Ciência da Computação (DCC) da UFMG, acaba de ser adquirida pela Bradesco Holding de Investimentos S.A. A negociação foi concluída no fim do mês de maio, após autorização do Banco Central. Criada pelo professor emérito da UFMG e pesquisador Nívio Ziviani e pelo empreendedor e CEO da Kunumi, Alberto Colares, a empresa inovou ao criar uma plataforma tecnológica que imita o funcionamento do cérebro.
Com sua rede neural artificial, a plataforma consegue analisar gigantescas bases de dados, encontrar padrões e propor soluções para diferentes problemas que poderiam levar décadas para serem resolvidos por seres humanos. “Em 2016, estávamos muito interessados em explorar a Inteligência Artificial, que ainda estava dentro dos muros da academia. Estávamos curiosos em saber se a IA se aplicava à doença de Alzheimer, para quantificar preços, para predizer alguma coisa. Então decidimos criar a Kunumi (menino, em tupi-guarani). Criança está associada à curiosidade, ao aprendizado, e temos esse espirito”, justifica Colares.
Nessa trajetória, a Kunumi atendeu clientes distintos, como bancos e hospitais. A lista inclui nomes como Braskem, Coca-Cola Brasil, Coca-Cola Atlanta, Spotify, Suzano, Unimed BH e Warner. “Nossa proposta sempre foi solucionar vários tipos de problemas em diferentes mercados. Isso exige uma estrutura mais robusta de pesquisa, pois não há uma solução pronta de Inteligência Artificial”, explica o CEO.
O trabalho chamou a atenção do Bradesco, um dos maiores grupos financeiros do Brasil. As negociações foram iniciadas em setembro de 2023. Dois meses depois, o banco anunciou a compra da Kunumi no lançamento de seu hub de tecnologia e inovação no Porto Digital de Recife. “Criar uma empresa e fazê-la decolar é duro, mas é uma riqueza que a gente gerou com empregos nobres, qualificados”, afirma o professor Nívio Ziviani.
Em razão da necessidade de se adaptar aos diferentes problemas dos clientes, metade dos 80 funcionários são engenheiros. A Kunumi chegou a manter escritórios em Belo Horizonte, São Paulo e Roterdã, na Holanda. Com a pandemia de covid-19, o trabalho em home office foi estabelecido, mas agora a expectativa é que parte das atividades voltem a ser presenciais.
Histórico empreendedor
A Kunumi é a quinta empresa criada por Ziviani e seus parceiros e a quarta a ser adquirida: a primeira foi na área de metabusca, a Miner, fundada em 1998 e adquirida pelo Grupo Folha de São Paulo/UOL, em 1999. A segunda, criada em 2000, foi a Akwan, na área de busca, única a ser adquirida pela Google Inc. fora dos Estados Unidos, em 2005, seguida pela Neemu, empresa na área de busca no e-commerce, estruturada em 2010 e adquirida pela Linx em 2015.
“Nesse processo, criamos muitas propriedades intelectuais e não fazia sentido ficar negociando cada transferência. Foi então que aprimoramos junto à CTIT [Coordenadoria de Transferência e Inovação Tecnológica, o núcleo de inovação da UFMG] o modelo de usufruto de ações. Isso significa que a Universidade tem os mesmos direitos que qualquer acionista em relação a dividendos e à venda da empresa, mas não tem direito a voto pelas ações que possui. A Kunumi nasceu tendo a Universidade como sócia, na forma de usufruto de ações”, explica Ziviani. Segundo o pesquisador, o valor da venda é sigiloso por força de contrato.
Ele enfatiza que esse modelo jurídico, que possibilita ter a UFMG como sócia, fomentando a interação entre academia e iniciativa privada, é resultado de 25 anos de esforços do próprio pesquisador e da Universidade, modelo que apelidou de paper to PIB [em referência ao Produto Interno Bruto]. Segundo Ziviani, usar estudos produzidos internamente, publicados no formato de papers (artigos científicos), para gerar riqueza, é uma das principais fontes de recursos de instituições como o Massachusetts Institute of Technology (MIT) e a Universidade de Stanford, ambas nos Estados Unidos, com milhares de empreendimentos incubados e associados.
Arranjo jurídico inédito no Brasil
O modelo de usufruto de ações, adotado na negociação entre a UFMG e a Kunumi, é uma forma inédita no Brasil de remuneração de uma universidade por meio da transferência de tecnologias. A coordenadora executiva da CTIT, Juliana Crepalde, explica que, até então, o sistema mais adotado em negociações desta natureza era o pagamento por meio de royalties. “Para adotar o modelo de usufruto, a CTIT e a Kunumi se pautaram nos avanços do Marco Legal de Ciência, Tecnologia e Inovação, que permite às instituições de ensino e pesquisa serem sócias de empreendimentos inovadores. Desde 2004, existe essa previsão na legislação, que foi aperfeiçoada em 2016. A UFMG criou a figura de usufruto de ações para ser remunerada pelo aporte das tecnologias na empresa”, explica Crepalde.
Durante a negociação com a UFMG, o primeiro passo foi a criação de um ambiente de inovação que envolvesse o Departamento de Ciência da Computação, por meio do Laboratório de Inteligência Artificial (LIA). Assim, em outro arranjo pioneiro de inovação, as tecnologias geradas foram cedidas, em vez de serem transferidas para a Kunumi.
“Mais uma vez, a UFMG foi a primeira universidade brasileira a usar um modelo de inovação como esse. Em troca da cessão, a Universidade recebeu usufruto de ações, uma forma de participação acionária. Isso exigiu da CTIT evoluir nos mecanismos de negociação de tecnologias para esse modelo inédito, que até hoje é referência para outras universidades e institutos de pesquisas interessados em aplicá-lo”, afirma Crepalde.
Independência de atuação
Os empreendedores enfatizam a independência da Kunumi, que apesar da aquisição, não será uma empresa pertencente ao Bradesco. “Mesmo com a venda, seguimos com nosso CNPJ e continuamos com nossa cultura e nosso investimento em pesquisa e desenvolvimento. O que vamos fazer é elevar o status em IA a partir do Brasil; participaremos da conversa mundial não como usuários, mas como proponentes de IA. Faremos a Inteligência Artificial brasileira avançar, e isso certamente vai favorecer o grupo que nos adquiriu”, afirma Alberto Colares.
Segundo Ziviani, como parte do acordo, a parceria com o DCC, por meio do LIA, será estreitada com capacitações e especializações, inclusive recorrendo ao laboratório de forma remunerada, o que permitirá a continuidade na formação de mestres e doutores na área pela UFMG.
Protagonismo em IA
Os empreendedores afirmam que, ainda em 2016, já previam o impacto gigantesco da IA, como o mundo tem visto atualmente. “O curioso é que estamos numa curva tão ascendente que há oito anos esse assunto ainda estava no plano das discussões, e hoje estamos lidando com isso na prática cotidiana, o que parece inacreditável. Não somos uma empresa que usa ferramentas disponíveis em IA, somos autorais e queremos discutir várias formas de uso, como no serviço público, em saúde e na educação”, revela Colares.
Grandes investimentos serão necessários para que o Brasil se credencie como protagonista na corrida por essa nova forma de vivenciar o mundo. “Precisamos de mais incentivos no país, de mais discussão. Hoje, estamos discutindo a regulação da IA, mas não de seu desenvolvimento, e isso precisa mudar, porque agora não falamos de anos e, sim, de meses”, avalia o CEO. “Hoje, estamos otimistas em uma estabilização, mas, antes, teremos que ressignificar o que é trabalho, escola e assim por diante. Sabemos que a IA dá medo e representa uma ameaça existencial. Acredito que o mundo ficará cada vez mais complexo, e a IA vai ajudar a lidar com isso”, finaliza Alberto Colares.
Janaína Coelho | CTITEmpreendedorismoInovaçãoCérebroInteligência artificial
Nanoscópio desenvolvido na UFMG conquista Prêmio Péter Murányi 2024
Nanoscópio desenvolvido na UFMG conquista Prêmio Péter Murányi 2024
Um nanoscópio desenvolvido na UFMG foi o vencedor do Prêmio Péter Murányi 2024. Com foco em ciência e tecnologia, a organização da iniciativa anunciou os três vencedores nesta quinta-feira, 22 de fevereiro. Com o título Nanoscópio: a ciência e a tecnologia ampliando a realidade, o projeto apresentado pela UFMG e coordenado pelo professor Ado Jório de Vasconcelos, do Departamento de Física, ficou em primeiro lugar.
O objetivo principal do projeto da Universidade foi desenvolver e produzir um nanoscópio – equipamento óptico que revela imagens na escala do nanômetro (medida 1 bilhão de vezes menor que o metro) – que pode ser utilizado para o desenvolvimento da nanotecnologia. Entre as aplicações, estão o estudo de materiais bidimensionais, como o grafeno, e de materiais de interesse da agroindústria, como os biocarvões. O instrumento já foi patenteado, e a tecnologia está pronta para ser transferida à indústria.
Na UFMG, o processo que culminou na criação do nanoscópio uniu pesquisadores dos programas de pós-graduação em Física, Engenharia Elétrica, Ciência da Computação e Inovação Tecnológica, além de profissionais da Matemática Computacional, Química, Engenharia Mecânica, Engenharia de Produção e Arquitetura. A primeira tese que tratou do assunto, em 2011, foi amplamente premiada.
Um artigo publicado na revista Nature dez anos depois, em 2021, foi tema de reportagem publicada no Portal UFMG. À época, o professor Ado Jório explicou que o equipamento ajudaria a extrair informações como as estruturas vibracional e eletrônica do grafeno, o que é importante para entender as propriedades desse material, entre as quais, a supercondutividade. “A descoberta atesta a importância do papel que o nanoscópio terá para a pesquisa em diversos campos. A transferência da tecnologia renderá frutos para a ciência, em escala global, para a UFMG e para o Brasil”, afirmou.
No ano passado, unidade do equipamento desenvolvida pela empresa FabNS, sediada no Parque Tecnológico de Belo Horizonte (BH-TEC) e criada por egressos da UFMG, foi exportada para a Alemanha, centro de referência em instrumentação científica.
Outros premiados
O projeto da UFMG foi seguido dos projetos Reator sustentável: constituído por eletrodos de óxidos metálicos e células solares, para aplicações na descontaminação de água ou conversão de CO2 utilizando energia solar, da Unicamp, e Tecnologia para redução da evasão escolar, da Universidade Federal do Sul da Bahia, da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB).
O projeto que ficou em segundo lugar, coordenado pela pesquisadora Claudia Longo, pode ser aplicado para a remoção de contaminantes da água. Durante o experimento realizado como prova de conceito, a tecnologia se mostrou capaz de eliminar da amostra o antibiótico amoxicilina. Outro uso possível é a conversão de dióxido de carbono (CO2) em produtos de valor comercial, como o etanol.
O terceiro colocado, conduzido por Leonardo Souza, propõe uma solução de baixo custo, baseada em inteligência artificial, para identificar, precocemente, estudantes em situação de abandono escolar e mapear os motivos que os levam a deixar a escola. A estratégia foi testada em duas cidades da Bahia e se mostrou capaz de reduzir a evasão escolar pela metade.
O prêmio
Instituída em 1999, a premiação é promovida anualmente, com o objetivo de reconhecer e premiar trabalhos que, de forma inovadora e prática, contribuam para a melhoria da qualidade de vida das pessoas. Ao todo, a premiação oferece R$ 250 mil aos finalistas, além de troféu e certificado de reconhecimento público.
Na edição 2024, foram avaliados 144 trabalhos indicados por 78 instituições de todo o país. Os três finalistas foram escolhidos pela Comissão Técnica e Científica, composta pelos professores Lucindo José Quintans Júnior (Universidade Federal de Sergipe), Luiz Eugênio Mello (Universidade Federal de São Paulo), José Oswaldo de Siqueira (Universidade Federal de Lavras) e Marco Antonio Bego (Universidade de São Paulo).
Com informações de Agência Fapesp
Empresa de egressos da UFMG exporta nanoscópio para a Alemanha
Empresa de egressos da UFMG exporta nanoscópio para a Alemanha
Historicamente dependente de tecnologia estrangeira, o Brasil acaba de fazer o caminho inverso: exportar um instrumento científico de ponta e de alto valor agregado. O feito foi protagonizado pela FabNS (Fábrica de Nanossoluções), que enviou para a Alemanha um equipamento de espectroscopia óptica de campo próximo, um nanoscópio.
O nanoscópio Porto foi desenvolvido pela empresa FabNS, sediada no Parque Tecnológico de Belo Horizonte (BH-TEC) e criada por egressos da UFMG. O equipamento foi enviado ontem, 8, para a Alemanha, centro de referência em instrumentação científica.
A tecnologia desenvolvida pelos pesquisadores da FabNS é capaz de revelar imagens na escala de um nanômetro (medida 1 bilhão de vezes menor que o metro) e, com isso, pode auxiliar nos estudos de composições de elementos como o grafeno, material extremamente flexível, supercondutor, aplicado, por exemplo, na indústria automobilística, na produção de eletrônicos e em processos de dessalinização da água.
Um dos fundadores da FabNS, Cassiano Rabelo explica que o equipamento conta com um diferencial único de qualidade em todo o mundo: uma nanoantena capaz de gerar resultados sem precedentes. Ele acrescenta que a contribuição da UFMG foi essencial para o desenvolvimento das pesquisas que culminaram na fabricação do Porto, visto que o desenvolvimento do equipamento teve início no Laboratório de Nanoespectroscopia (LabNS) do Departamento de Física do Instituto de Ciências Exatas (Icex) da UFMG.
“Todo esse potencial tecnológico traz desafios importantes. A UFMG foi essencial em todo o processo, nos dando muito abertura e fornecendo a infraestrutura dos laboratórios onde desenvolvemos as pesquisas. O ecossistema local foi fundamental para a viabilidade da produção do Porto”, diz Rabelo.
O engenheiro e também sócio da FabNS, Taiguara Tupinambás, acrescenta que a exportação do Porto mostra o potencial do país para produzir e exportar tecnologia. ""Nossa experiência pode auxiliar no desenvolvimento de avanços disruptivos em nanotecnologia. A exportação dessa tecnologia rompe com o histórico de importações de alto valor de instrumentos científicos, e o Brasil passa agora a exportar.”
Interesse estrangeiro
A exportação do equipamento é o ponto alto de um ciclo iniciado em 2005, quando foram obtidos os primeiros resultados das pesquisas que geraram o nanoscópio. Após anos de trabalhos no LabNS, a FabNS foi criada em 2020, estabelecendo sua sede no BH-TEC em 2022.
O interesse da instituição alemã pelo aparelho surgiu durante um congresso internacional, quando um grupo de pesquisadores do laboratório de física de novos materiais da Universidade de Humboldt soube da tecnologia que estava sendo desenvolvida no Brasil. A negociação foi feita com o líder do grupo, Sebastian Heeg, professor daquela instituição de ensino.
""Essa operação criou um diferencial tecnológico muito importante, ainda mais pelo fato de estar sendo exportado para a Alemanha, que é uma referência mundial em instrumentação científica nessa área de caracterização de materiais"", reforça o CEO da FabNS, Hudson Miranda.
Coleção de feitos
A exportação do nanoscópio é mais um feito para o rol da FabNS. Em 2021, o grupo de egressos da UFMG que fundou a empresa emplacou a capa da Nature, com a publicação de artigo que mostrava a eficiência do nanoscópio produzido com nanoantenas óticas patenteadas pelos pesquisadores.
A caixa que deixou o aeroporto de Confins rumo à Alemanha levou o gabinete do nanoscópio, componentes eletrônicos – 13 placas eletrônicas com mais de 2 mil componentes projetados e desenvolvidos pela FabNS – , o sistema de varredura de sonda e as caixas com as nanoantenas.
Além de consolidar o país como exportador, a FabNS agora almeja fomentar o mercado nacional. “Enxergamos um bom horizonte, com movimentos governamentais para permitir que empresas tenham produtos intensivos em capital intelectual para criar esse diferencial. É importante criarmos essa base aqui para desenvolver ciência de ponta”, acrescenta Hudson Miranda.
A FabNS tem quatro sócios-fundadores, todos egressos da UFMG: o pesquisador Cassiano Rabelo, o engenheiro Hudson Miranda, o físico e servidor do Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro) Thiago Vasconcelos e o engenheiro Taiguara Tupinambás. Os professores Ado Jorio de Vasconcelos e Luiz Gustavo Cançado, ambos do Departamento de Física do ICEx, atuam como conselheiros no grupo.
Com Agência BH-TEC
Calixcoca é a grande vencedora do Prêmio Euro
Calixcoca é a grande vencedora do Prêmio Euro
Campanha da UFMG com voto de médicos de 17 países garantiu premiação de 500 mil euros.
A pesquisa Calixcoca é a iniciativa destaque da 2ª edição do Prêmio Euro Inovação na Saúde. A cerimônia de entrega foi realizada nesta quarta-feira, 18 de outubro, em São Paulo. Com o prêmio, a equipe leva 500 mil euros para a UFMG.
O coordenador da pesquisa, professor do Departamento de Psiquiatria (PSQ) da Faculdade de Medicina, Frederico Garcia, agradeceu à sociedade brasileira que apoiou a campanha. “Fazer ciência na América Latina não é fácil. A UFMG é, hoje, uma universidade que está fazendo a diferença. Só temos a agradecer o apoio da nossa reitora e do nosso pró-reitor de Pesquisa”, celebrou. O pró-reitor de Pesquisa da UFMG, professor Fernando Reis, estava presente na cerimônia.
O medicamento induz o sistema imune a produzir anticorpos que se ligam à cocaína na corrente sanguínea. Essa ligação transforma a droga numa molécula grande, que não passa pela barreira hematoencefálica. O projeto realizou etapas pré-clínicas, em que foi constatada segurança e eficácia para tratamento da dependência de crack e cocaína e prevenção de consequências obstétricas e fetais da exposição às drogas durante a gravidez em animais.
Em seu discurso, o professor ressaltou o compromisso com os pacientes que sofrem com a dependência química. “Sabemos como é difícil ter uma pessoa dependente em casa, como é sofrido para um acometido com a dependência ter que lidar com a ambivalência de usar ou não droga e como é ainda mais difícil para uma gestante dependente proteger seu feto e lidar com a dor da abstinência. Temos essa missão”, finalizou.
Além de Frederico Garcia, os estudos reúnem os professores Maila de Castro, da Faculdade de Medicina, Gisele Goulart, da Faculdade de Farmácia, Ângelo de Fátima, do Instituto de Ciências Exatas, e os pesquisadores do Núcleo de Pesquisa em Vulnerabilidade e Saúde (NAVeS) Paulo Sérgio de Almeida, Raissa Pereira, Sordaini Caligiorne, Brian Sabato, Bruna Assis, Larissa do Espírito Santo e Karine Reis.
Além da Calixcoca, outra iniciativa da UFMG foi premiada. A SpiN-Tec, vacina em desenvolvimento contra a covid-19, foi agraciada com 50 mil euros, por ser uma das vencedoras da categoria “Inovação em Terapias”.
Assista a íntegra:https://www.youtube.com/embed/Kg2CRAznKoI?feature=oembed
Investimento
Até o momento, a Calixcoca é financiada pelos governos federal e de Minas Gerais e com recursos de emendas parlamentares. No fim de agosto, a reitora Sandra Regina Goulart Almeida e o professor Frederico Garcia apresentaram o projeto da vacina ao ministro Camilo Santana, da Educação, e solicitaram apoio governamental para dar prosseguimento aos testes.
Em julho, o secretário de Estado de Saúde, Fábio Baccheretti, anunciou, durante visita da ministra Nísia Trindade à UFMG, o aporte de R$ 10 milhões no projeto.
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Edital da Inova recebe propostas de empreendimentos para incubação
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A busca é por iniciativas que acessem o capital intelectual da UFMG e partam de tecnologias desenvolvidas na instituição; candidaturas podem ser submetidas até 20 de novembro
A incubadora de empresas da UFMG (Inova) publicou edital para o recebimento de propostas de empreendimentos para incubação, no âmbito do programa InovaLab. As candidaturas podem ser submetidas até o dia 20 de novembro, e a previsão é que o resultado seja divulgado até 22 de dezembro.
A chamada vai selecionar até dez propostas de empreendimentos de base tecnológica. Eles farão parte do programa InovaLab – que, por sua vez, será executado em duas fases, a seleção (fase 1), de caráter eliminatório, e o desenvolvimento (fase 2). Para a fase 2, vão seguir até cinco das dez candidaturas aprovadas inicialmente.
O edital visa reunir, mais especificamente, propostas de projetos de base tecnológica constituídos a partir de tecnologias ou de capital intelectual da UFMG em “hard science”. As condições específicas de candidatura estão descritas no edital e no site que o hospeda. As propostas selecionadas vão receber da Inova e de seus parceiros o suporte necessário para desenvolver os seus empreendimentos.
A previsão dada pelo edital para que a fase 1 tenha início é 19 de fevereiro de 2024, e a divulgação do resultado dos aprovados para a fase 2 deve ocorrer até 27 de setembro do mesmo ano. A segunda fase – isto é, a incubação da empresa, propriamente – deverá ser iniciada em 7 de outubro de 2024.
Critérios
Para que a proposta submetida seja elegível, é necessário, entre outras coisas, que pelo menos um dos membros da equipe executora do empreendimento tenha disponibilidade para se dedicar às atividades do programa em ambas as fases. A participação no programa se dará de forma híbrida, com algumas atividades presenciais obrigatórias.
O edital informa também que, para a participação na fase 1, não é obrigatório haver uma empresa constituída com CNPJ ativo no momento da inscrição. Contudo, caso o empreendimento seja aprovado para a fase 2, será necessária a abertura de sociedade empresária para a continuidade no programa. Todos os critérios para candidatura estão explicados no edital.
No ato da inscrição, o candidato deverá preencher um formulário detalhando, entre outras coisas, o vínculo do projeto com a UFMG, o seu grau de maturidade tecnológica e o seu grau de aproximação do mercado. O e-mail inova-incubacao@ctit.ufmg.br foi disponibilizado para o esclarecimento de dúvidas relacionadas ao processo de seleção. Toda comunicação relativa à seleção deve ser concentrada nesse meio de contato.
Capital intelectual, tecnologias, estrutura de pesquisa
O lançamento do edital do programa InovaLab foi anunciado no início de setembro em um evento no Centro de Atividades Didáticas 2 (CAD 2), que contou com ampla participação dos empreendedores e futuros empreendedores da comunidade universitária. Na ocasião, a líder de incubação da Inova Juliana Saliba falou ao Portal UFMG sobre o caráter inovador da presente chamada.
“O destaque é que o edital aceita candidaturas em fase anterior à incubação, para preparar o pesquisador e empreendedor para alcançar as condições mínimas para a incubação e poder entrar. Nessa etapa, vamos ter todo o processo preparatório e de sensibilização, de conexão, para dar encaminhamento à iniciativa. O mais interessante é que o candidato não precisa criar a empresa no início do processo; apenas lá na frente, quando for a hora de ser efetivamente incubado”, detalhou.
Juliana também falou sobre a importância da Inova para o ambiente de inovação da Universidade. “A Inova, como incubadora da UFMG, é um ponto de referência para o empreendedorismo na instituição. Trabalhamos para captar as demandas e ajudar os pesquisadores a direcionar essas demandas. A rigor, atuamos como guias; buscamos ser os instrutores desse caminho do empreendedorismo”, demarcou.
O diferencial da UFMG
Fundada em 2003, a Inova é o braço de empreendedorismo da UFMG. Vinculada à Coordenadoria de Transferência e Inovação Tecnológica (CTIT), a incubadora de empresas atua, no ambiente da Universidade, no suporte e no incentivo a empresas nascentes, com vistas a prepará-las para o mercado. Sediada no campus Pampulha, em Belo Horizonte, a incubadora tem histórico de 84 empresas apoiadas e 39 empresas graduadas.
Gilberto Medeiros Ribeiro, diretor da CTIT, afirmou ao Portal UFMG que outro diferencial do atual edital é a procura por iniciativas que envolvam propriedade intelectual. “Procuramos iniciativas que acessem o capital intelectual da UFMG e que utilizem a estrutura de pesquisa da Universidade. Em outras palavras: o que queremos é aproximar mais os resultados de nossas pesquisas do mercado, através do processo de incubação”, demarcou.
Segundo Gilberto, procura-se iniciativas que valorizem esses três pontos: a estrutura de pesquisa da Universidade, seus laboratórios institucionais de pesquisa; o capital intelectual dos membros da comunidade, como alunos e professores; e as tecnologias desenvolvidas, o know-how – “isto é, tudo aquilo que a gente protege dentro da CTIT”, disse.
“Estamos fazendo isso porque, pela cidade, há oferta muito grande de espaços e iniciativas, mas a UFMG se diferencia pelo capital intelectual que tem, pela infraestrutura de pesquisa que tem, pelas tecnologias que tem. Então, esses são os parâmetros que guiam o edital e que vão guiar a contratação dos projetos e a possibilidade de as empresas serem incubadas”, demarcou.
Ewerton Martins Ribeiro
[Opinião] UFMG, 96 anos de defesa da democracia
[Opinião] UFMG, 96 anos de defesa da democracia
Uma caminhada pelo campus Pampulha revela muito da história de uma das maiores e melhores universidades do país. Detalhes de sua paisagem passam, por vezes, despercebidos dos olhares mais apressados. Esse é o caso de um monumento formado por quatro troncos instalado, em 2004, no gramado da Biblioteca Universitária, que simboliza quatro vidas ceifadas prematuramente. Gildo Macedo Lacerda, Idalísio Soares Aranha Filho, José Carlos Novaes Mata Machado e Walkíria Afonso Costa eram estudantes da UFMG quando foram mortos pela ditadura militar.
O monumento é um tributo à memória desses jovens que defendiam os ideais democráticos e sonhavam com um Brasil melhor. Eles e tantos outros, que tiveram o mesmo destino trágico, representam uma universidade que nunca se curvou ao arbítrio, como profetizou o nosso primeiro reitor, Francisco Mendes Pimentel: “Nestas terras moças da América, ela [a Universidade] não será cúmplice passiva de tiranias”.
O vaticínio de Mendes Pimentel se confirmaria em vários momentos da história da UFMG, que completa 96 anos neste 7 de setembro, celebrados no mesmo dia em que foi proclamada a Independência do Brasil. Nossos pioneiros escolheram a data de 7 de setembro de 1927 como marco inaugural da então Universidade de Minas Gerais para demarcar a convergência de dois projetos simbióticos: o de um Brasil livre e soberano e o de uma universidade autônoma e democrática, na qual uma vida nova sempre principia, como diz o lema da instituição, incipit vita nova.
Nossos pioneiros escolheram a data de 7 de setembro de 1927 como marco inaugural da então Universidade de Minas Gerais para demarcar a convergência de dois projetos simbióticos: o de um Brasil livre e soberano e o de uma universidade autônoma e democrática.
Ao longo de sua história, a atuação de dirigentes e de sua comunidade conduziu a UFMG para a defesa inarredável da democracia e contra o arbítrio. É imperiosa a lembrança do reitor Aluísio Pimenta, que defendeu a instituição contra intervenções. Deposto em 9 de julho de 1964, Pimenta empreendeu uma articulação política que o reconduziria ao cargo. No entanto, a exemplo de muitos docentes de universidades, teve decretada sua aposentadoria compulsória pelo AI-5, em 1968.
Em 1977, o país vivia um clima de distensão, e o movimento estudantil estava se reorganizando. A tentativa de refundar a União Nacional dos Estudantes (UNE) naquele que seria o 3º Encontro Nacional dos Estudantes, marcado para 3 de junho, na sede do DA da Faculdade de Medicina, foi duramente reprimida. O cerco policial acabou após 24 horas de vigília dos 400 estudantes, que foram levados para a delegacia. A saída dos estudantes foi negociada pelo então reitor Eduardo Osório Cisalpino. Uma foto emblemática do episódio mostra cinco estudantes cercados pelos militares e um discreto trio que “escoltava” os jovens – o próprio Cisalpino, o secretário de Educação de Minas Gerais, José Fernandes Filho, e o diretor do ICB, Marcello de Vasconcellos Coelho.
Com a redemocratização em marcha, novos ventos sopravam sobre o país. Chegara a hora de uma nova constituição, e a UFMG contribuiu ativamente. A Assembleia Nacional Constituinte teve seu trabalho escrutinado pelo Centro de Acompanhamento da Constituinte (Ceac), criado por iniciativa do reitor Cid Veloso, que reunia 13 universidades mineiras. Representantes dessas instituições redigiram a Carta de Minas, na qual defendiam a educação como dever do Estado, princípio que acabou consagrado na Constituição Cidadã, promulgada em 1988, e que continua nos inspirando.
Nas décadas seguintes, o Brasil parecia ter encontrado o caminho da construção democrática. Na segunda década deste século, porém, o país experimentou uma onda de práticas lesivas ao estado democrático de direito. Várias universidades foram afetadas por esse processo, que resultou, em 2017, no trágico suicídio do reitor Luiz Carlos Cancellier, da UFSC, e na condução coercitiva de dirigentes da UFMG. Passados mais de cinco anos, todos os processos foram arquivados, e os dirigentes, inocentados. As marcas da violência simbólica persistem nas mentes e nos corações que ainda aguardam uma forma de reparação. Mais uma vez, nossa comunidade se mobilizou em defesa da democracia, resistindo bravamente.
As ameaças à democracia hoje se materializam no fenômeno da desinformação, que vem corroendo as instituições. No ano passado, nossa universidade instituiu o Programa UFMG de Formação Cidadã em Defesa da Democracia, que se desdobra em várias frentes. Ao lutar contra a desinformação, a UFMG está, ao mesmo tempo, defendendo a democracia e as instituições e ajudando a proteger a sociedade.
Comprometida com a democracia, a UFMG abriu-se, nos últimos 20 anos, a segmentos historicamente alijados, como negros, indígenas e pessoas com deficiência. Uma miríade de novos sujeitos aqui se faz presente, e sua inserção requer esforço para acolher novas identidades, coletividades e demandas, cumprindo sua missão de ser uma instituição de excelência, inclusiva e sempre a serviço da sociedade. Longa vida à UFMG.
[Artigo publicado no jornal Estado de Minas, em 7/9/2023]
Sandra Regina Goulart Almeida | reitora da UFMG
IA desenvolvida na UFMG identifica no sangue sinais precoces de câncer de mama
IA desenvolvida na UFMG identifica no sangue sinais precoces de câncer de mama
Algoritmos de inteligência artificial (IA) que interpretam exames de sangue de rotina se apresentam como novos aliados da saúde da mulher. Desenvolvidos pela pesquisadora Daniella Castro Araújo, doutoranda do Programa de Pós-graduação em Ciência da Computação da UFMG, eles podem ajudar na detecção precoce do câncer de mama.
A ferramenta é uma aplicação do trabalho desenvolvido por Daniella Castro e outros pesquisadores da UFMG que usam analitos (componentes de amostras de sangue) para auxiliar no diagnóstico de doenças, como Alzheimer e covid-19. A inovação foi patenteada pela Huna, healthtech (empresa que desenvolve soluções para questões de saúde com base em tecnologia de ponta) que usa a IA para a detecção precoce de doenças crônicas.
Daniella Castro, que é diretora de tecnologia da startup, valeu-se do conhecimento acumulado em estudos anteriores para desenvolver a solução. Na avaliação da pesquisadora, a ferramenta tem potencial para transformar a estratificação de risco de cânceres de uma abordagem populacional para personalizada. ""Aplicamos a inteligência artificial para interpretar exames de sangue rotineiros. A complexidade das interações entre nossos marcadores sanguíneos impede uma análise linear simples para doenças complexas, como o câncer de mama. Por isso, utilizamos IA para reconhecer padrões em grupos de pacientes com e sem câncer. Quase 80% das mulheres brasileiras não têm acesso à mamografia, exame crucial para o diagnóstico precoce do câncer de mama, responsável por taxa de cura de 99%. Com nossa solução, pretendemos priorizar mulheres mais expostas aos riscos, ajudando a otimizar a fila para a mamografia”, explica a pesquisadora.
No desenvolvimento do trabalho, foram analisados bancos de dados de instituições como o Hospital de Amor, em Barretos (SP), e o Grupo Fleury, rede de laboratórios com atuação em São Paulo, que reúnem resultados de exames como mamografias, exames de sangue e biópsias usadas para diagnosticar o câncer de mama. Ao separar as mulheres em dois grupos – um com diagnóstico de câncer e outro sem –, os pesquisadores avaliaram exames de sangue realizados até seis meses antes do diagnóstico final. ""Nosso modelo, construído com base nesses dados, tem uma taxa de acerto de cerca de 70%, chegando a quase 90% quando inclui outros dados, como históricos clínicos e laudos de outros exames. Nossas soluções não implicariam custos adicionais ao SUS ou para operadoras e planos de saúde. O trabalho se baseia no melhor aproveitamento de exames já realizados rotineiramente"", esclarece Daniella Castro.
No ‘mundo real’
A ferramenta agora será testada por algumas operadoras de saúde. “Nosso próximo passo é testar a ferramenta no ‘mundo real’, ou seja, com instituições de saúde parceiras, públicas ou privadas. Hoje, temos o Hospital de Amor como um grande parceiro, mas queremos expandir e ampliar o acesso dessa nova tecnologia aos usuários do SUS”, afirma a doutoranda.
Em razão de seus estudos, Daniella Araújo recebeu recentemente o Prêmio de Empoderamento Feminino da Fundação Bayer, vinculada à multinacional alemã dos ramos farmacêutico e de biotecnologia. O prêmio visa incentivar as mulheres empreendedoras a criar impacto por meio de inovações que ajudem a promover mudanças sociais. O estudo, que concorreu com mais de 1 mil projetos das áreas de saúde, nutrição e agricultura, todos liderados por mulheres, foi uma das cinco iniciativas premiadas na América Latina. “Esse é mais um reconhecimento da seriedade e do potencial de um trabalho feito com muita dedicação para revolucionar a detecção precoce do câncer”, avalia Daniella.
Esse é o quarto prêmio recebido pela iniciativa, reconhecida anteriormente pela Roche (multinacional suíça que atua nas áreas de medicamentos e diagnóstico), pelo A.C. Camargo (hospital especializado no tratamento de câncer com unidades em São Paulo) e pelo Grupo Fleury. “Isso mostra que estamos no caminho certo para aliviar o sofrimento, reduzir as desigualdades e promover o bem-estar por meio da tecnologia”, comemora Daniella Castro.
De acordo com o Ministério da Saúde, o câncer de mama é o tipo de tumor mais comum entre as mulheres no mundo e no Brasil, depois do câncer de pele não melanoma. A doença é relativamente rara antes dos 35 anos e mais frequente especialmente após os 50 anos. Levantamentos indicam aumento da sua incidência tanto em países desenvolvidos quanto naqueles em desenvolvimento. Há vários tipos de câncer de mama, que podem ou não evoluir rapidamente.
Nathalie Rajão | Assessoria de Comunicação do Departamento de Ciência da Computação
SpiN-TEC é ‘segura e imunogênica’, indicam resultados parciais
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O diretor clínico do Centro de Tecnologias de Vacinas (CTVacinas) da UFMG, professor Helton Santiago, apresentou, nesta quinta-feira, dia 15, os resultados parciais dos testes clínicos do imunizante SpiN-TEC MCTI UFMG, que protege contra a covid-19. “O principal parâmetro testado é a segurança, e a vacina se mostrou segura”, resumiu Santiago, pesquisador associado do CTVacinas e docente do ICB, durante a apresentação realizada no auditório do Parque Tecnológico de Belo Horizonte (BH-TEC).
“O outro parâmetro analisado foi a resposta imunológica, cujo resultado ainda é muito preliminar. Mas é possível perceber que a vacina induz uma resposta imunológica na pessoa vacinada”, complementou.
A fase de ensaios clínicos é executada na Faculdade de Medicina, na Unidade de Pesquisa Clínica em Vacinas (UPqVac), coordenada pelo professor Jorge Andrade Pinto, do Departamento de Pediatria. Os testes são desenvolvidos em três fases. A primeira reuniu 38 pessoas entre mais de 1,7 mil candidatos. A segunda fase, que deverá ser inaugurada no início do próximo semestre, contará com 360 pessoas. Com a atualização do cenário da covid-19, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) sugeriu um ajuste no protocolo para que os testes avancem para a fase 2. Na fase 3, serão cerca de 4 mil voluntários.
Imunidade celular
A expectativa é de que a vacina chegue aos braços da população em 2025, o que levanta a questão sobre a sua eficiência contra as variantes que poderão surgir até lá. “A SpiN-TEC tem grande diferencial, uma vez que privilegia a imunidade celular. Todas as outras vacinas dão ênfase à imunidade humoral, ou seja, induzem anticorpos neutralizantes”, explica Helton Santiago.
“No início, [a imunidade humoral] pareceu ser uma estratégia excelente, porque os anticorpos neutralizantes impedem o vírus de infectar as células. No entanto, temos observado que esse vírus apresenta uma evolução muito rápida: novas variantes estão surgindo, e as vacinas precisam de atualização muito rápida, o que é um desafio para a ciência"", justificou Helton Santiago. “Como tem sua atuação concentrada em regiões mais conservadas do vírus, como a proteína N, a SpiN-TEC tende a induzir imunidade celular, e essa resposta, até onde os testes indicam, serve para todas as variantes”, analisou o coordenador dos testes clínicos.
Mais do que uma vacina
Além de representar uma possível solução para as variantes, a SpiN-TEC carrega mais um trunfo. “O fato de a SpiN-TEC ser 100% brasileira é muito importante porque tem ensinado a ciência brasileira a fazer um percurso inédito. Da concepção à fase de testes pré-clínicos, passando pela parte de síntese e formulação, todas essas etapas são resolvidas no Brasil”, salientou Helton Santiago.
“Aprendemos a identificar onde estão os gargalos na ciência brasileira na hora de inovar na área biomédica – e essa vacina tem nos ensinado a resolver esses gargalos. As próximas vacinas poderão seguir um caminho mais bem pavimentado até chegar às prateleiras das farmácias”, avaliou o professor.
Transmitida e disponível no canal da Coordenadoria de Assuntos Comunitários (CAC) no YouTube, a apresentação dos resultados dos testes clínicos da vacina da UFMG ocorreu no âmbito da série de seminários promovida pelo CTVacinas, centro de pesquisas em biotecnologia, resultado de parceria da UFMG com o Instituto René Rachou da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz-Minas) e o BH-TEC.
O ambiente de pesquisa, que é dedicado ao desenvolvimento de novas tecnologias para a produção de kits de diagnóstico e vacinas contra doenças humanas e veterinárias, será transformado no Centro Nacional de Vacinas (CNVacinas), resultado de acordo firmado entre a UFMG, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e o governo de Minas Gerais. O início das obras de construção do CNVacinas – em terreno no BH-TEC – foi oficializado em dezembro do ano passado.
Com CTVacinas da UFMG